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domingo, 29 de setembro de 2013
1ª ARTISTA NEGRA A FAZER TELENOVELA
ISAURA BRUNO - São Paulo - Brasil
A primeira negra a protagonizar uma telenovela no Brasil.
Maria Isaura Bruno nasceu em Vila Ribeiro, na Fazenda Santana, interior de São Paulo (Campinas) em 23 de junho. Não se sabe ao certo se em 1916 ou 1926. Seus pais trabalhavam nesta fazenda, onde ela foi criada. Aos 3 anos de idade perde o pai e aos 11 anos perde também a mãe, passa a ser criada pela sua avó materna até seu falecimento, quando se vê obrigada a deixar a casa para trabalhar como cozinheira de uma família na cidade.
Algum tempo depois, Isaura é trazida por um dos parentes desta família, para a capital paulista. Na capital, Isaura acaba engravidando ainda solteira, e sem poder dormir nos empregos, ia para as gafieiras, bailes noturnos, que eram os locais onde geralmente as empregadas domésticas costumavam frequentar e conseguia um pouco de conforto com as amigas.
Para dormir, arranjava uma cadeira numa igreja, ou um banheiro público para descansar e quando muito, alugava um pequeno quarto de baixa renda nestes casarões abandonados pela cidade. Poucos meses após dar a luz perdeu a criança por causa de pneumonia e por viver em tais condições. Como Isaura costumava frequentar as gafieiras, certo dia encontrou-se com a cozinheira do então diretor e ator Walter Foster, que lhe disse que o mesmo estava precisando de uma pessoa com as suas descrições para participar de um filme.
Isaura foi e conseguiu um contrato para participar de “Luar do Sertão” de 1949, e atuou pela primeira vez ao lado de Bina Bergamo, Dora Machado de Campos, Nhá Barbina e Walter Foster, entre outros. A partir de então passou a fazer todo tipo de trabalho que aparecesse, geralmente próximos ou ligadas as produções de filmes e quando a oportunidade acontecia participava de um evento ou outro, e assim ia tocando sua vida.
Em 1952, participou do filme “Simão, o Caolho”, sob direção de Alberto Cavalcanti e contracenou ao lado de Yara Aguiar, Mesquitinha, Silvana Aguiar e Nair Bello, entre outros, e assim, foi aumentando seus laços de amizade com outros artistas. Dez anos mais tarde, em 1962, voltou a participar de um outro filme “O Vendedor de Linguiças”, uma comédia sob direção de Glauco Mirko Laurelli, e atuou ao lado de Mazzaropi, Geny Prado, Roberto Duval, entre outros grandes artistas da época.
Alguns anos mais tarde, em 1964, foi convidada para interpretar a personagem da Tia Anastácia no “Sitio do Pica-pau Amarelo” realizado pela TV Cultura, comandada por Lúcia Lambertinie, e pouco tempo depois Isaura já estava, juntamente com outros atores e atrizes encabeçando o elenco da novela “O Direito de Nascer”, na extinta TV Tupi, numa adaptação do original de Felix Caignet por Thalma de Oliveira e Teixeira Filho, sob direção de Lima Duarte e José Parisi, quando a personagem Mamãe Dolores, interpretada por Isaura Bruno começou a comover a todos que assistiam a novela, ao ver o sofrimento da pobre mãe negra lutando pelo seu filho branco 'de criação", Albertinho, num mundo cheio de preconceito.
A trama, baseada no original cubano de 1946 é sempre lembrada por ter os ingredientes necessários para chegar às emoções do ser humano. Sua história, por incrível que pareça, não apresenta nenhum mistério que o telespectador só saberá ao final. Ao contrário, o público é quem sabe de tudo. Os personagens em cena se entrelaçam sem se conhecer suficientemente para admitir seus laços familiares. A expectativa se restringe em ver a reação de cada um ante novas revelações. Somando à boa história, veio a questão da maternidade fora do casamento e do aborto, temas considerados "tabu" na época.
Antes da apresentação na TV, O Direito de Nascer já havia sido sucesso no rádio. Em São Paulo, através da Rádio Tupi, em 1952, com Walter Foster (Albertinho Limonta), Guiomar Gonçalves (Mamãe Dolores), Yara Lins (Maria Helena), Heitor de Andrade (Dom Rafael) e Norma Lopes (Isabel Cristina). (*)
No Rio de Janeiro, também na década de 50, através da Rádio Nacional, sendo a voz do protagonista Albertinho Limonta interpretada por Paulo Gracindo.
Na versão brasileira, Isaura Bruno, torna-se então, a primeira protagonista negra a atuar em uma novela. O sucesso foi tão grande, que ao final da novela, todos queriam conhecer o elenco, especialmente a "Mamãe Dolores", personagem de Isaura Bruno. Inclusive, a personagem (e vida) em muito se assemelhava a HATTIE McDANIEL, o primeiro intérprete negro a ganhar um Oscar - Melhor atriz coadjuvante pelo filme "... E o Vento Levou", de 1939. (ver link no final deste texto).
O encerramento desse primeiro grande sucesso da teledramaturgia teve uma festa sem precedentes em São Paulo, na noite da sexta-feira de 13/08/1965. O elenco da novela percorreu do saguão dos Diários Associados (na Rua Sete de Abril), em carro aberto, ruas centrais da cidade até o Ginásio do Ibirapuera.
No dia seguinte, a façanha seria repetida, com maior repercussão, no Maracanãzinho, no Rio de Janeiro. O estádio superlotado dava uma mostra do poder das novelas sobre as massas. Numa espécie de neurose coletiva, o povo gritava o nome dos personagens e chorava por Mamãe Dolores, Maria Helena e Albertinho. Nesse tumulto, a atriz Guy Loup chegou a desmaiar ante a emoção. Na verdade, nenhum ator brasileiro, em qualquer época, tivera as honras de tanta ovação.Também houve festa de encerramento da novela no Mineirão, em Belo Horizonte.
Após 'O Direito de Nascer, Isaura Bruno foi em seguida escalada para a novela “O Preço de uma Vida” escrita por Thalma de Oliveira, sob direção de Henrique Martins, exibida entre agosto de 1965 a fevereiro de 1966, e onde Isaura interpretou a personagem de Mãe Maria. Também foi escalada para a próxima novela “O Anjo e o Vagabundo”, escrita por Benedito Ruy Barbosa e direção de Wanda Kosmo, também na extinta TV Tupi, entre outubro de 1966 a março de 1967, onde interpretou a personagem Branca.
Em 1967, Isaura voltou a trabalhar no cinema ao lado de Mazzaropi no filme “O Jeca e a Freira”, juntamente com Maurício do Valle, Elizabeth Hartmann, Ewerton de Castro, e outros. O filme foi um grande sucesso, elevando ainda mais o nome de Isaura. Em 1969, foi convidada a participar da novela “A Cabana do Pai Tomás”, pela Rede Globo, sob direção de Régis Cardoso, que apresentada entre julho de 1969 a março de 1970, onde Isaura interpretou o papel de Bessie, sendo essa a sua última novela.
Os anos 70 não foram muito frutíferos para os personagens de origem negra e muito artistas afro-brasileiros tiveram seus trabalhos minguados de um modo geral, tanto na televisão, quanto no cinema. Isaura ainda chegou a fazer mais dois filmes, “A Marcha”em 1972 e “O Incrível Seguro de Castidade” em 1975, sendo este o seu último trabalho artístico. Sem trabalho no cinema e na televisão, Isaura Bruno entrou em decadência, e por certo tempo passou a viver apenas dos direitos autorais de um livro seu de culinária que ela havia publicado.
Mas, logo até esse dinheiro acabou e também a ficar cada vez mais esquecida pelos amigos e pelo público, até a sua morte, como indigente, vítima de enfarto enquanto vendia doces nas ruas da cidade de Campinas, interior paulista, aos 60 anos de idade, em 3 de maio de 1977.
Alguns autores, no entanto, mencionam que ela morreu em plena Praça da Sé, capital paulista, mas o local pouco importa, mas sim o retrato trágico e desumano como algumas pessoas acabam as suas vidas, e isso é muito triste. Isaura Bruno a primeira atriz afro-brasileira a conseguir ser a protagonista principal de uma telenovela brasileira.
